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Revista: Saber Eletrônica Data: 07/91 Conhecido como prof. Pardal dos anos 90, o paulista de 34 anos, João Barassal Neto, apostou na sua genialidade. Há três anos montou sozinho a JBN Electronics e saiu à caça de investidores para bancarem seus projetos. Hoje desenvolve sistemas de vídeo fone, placas de voz, mídia impressa falada e cartões magnéticos para feiras e shoppings e estará mostrando, em meados do 2 semestre, o projeto mais ousado em termos de vanguarda: |
Num mercado estagnado o Sr. consegue lançar projetos e achar investidores?
Sim, até as grandes empresas podem se interessar. A época é de parceria, de “joint ventures”, quem não partir para este caminho irá explodir. Eu não conseguiria sobreviver se não tivesse projetos na mão e investidores. Por estarmos em crise é que precisamos nos unir. Crise de desenvolvimento é um risco. O que me segurou todo este tempo foram projetos que eu já tinha e que vieram bancando todo o meu reinvestimento porque acredito no mercado e que para se tirar o pé da lama só mesmo usando muita criatividade. Se de repente, alguém resolver copiar vai acabar afundando, porque a cópia é total falta de criatividade. De repente, o que me segura ainda na área de desenvolvimento é a falta de incentivos que o país dá para a pesquisa. Por exemplo, quero hoje comprar um osciloscópio de 150 mega, um analisador lógico que me custam U$$ 30 mil, e isto sai caro por causa dos impostos de importação. Se eu trouxesse, além de auxiliar na pesquisa, estaria abrindo campo de trabalho e trazendo novas tecnologias.
Falando em parcerias a JBN fechou recentemente com os Estados Unidos uma “joint venture” no setor de vídeo fone?
Já estou montado aqui, as placas estão prontas o que eu quero é de empresas que entrem comigo no negócio. Não adianta lançar 500 unidades, isto é coisa para 20 ou 30 mil unidades por mês. Este projeto fica inviabilizado com baixa produção, porque iria embutir um custo alto. Se entrar numa escala de 30 mil unidades o preço poderia chegar a Cr$ 30 mil. Até as grandes empresas do ramo podem entrar, quem sabe. O negócio é a divisão.
O projeto do carro Tuffi 4.1 é uma vanguarda bastante ousada nestes tempos, você concorda?
O carro Tuffi 4.1 é exatamente um pouco de mim, um pouco do que penso em termos de vanguarda. Um projeto que criei e vendi. O grupo Tuffi, um nome simbólico, que não pertence ao setor automobilístico, acreditou no meu potencial e já investiu até agora cerca de U$$ 2,5 milhões. Quando viajo para os Estados Unidos e Japão vejo tecnologia muito avançada na minha frente e quando volto sinto uma angústia imensa porque é difícil trazer alguma coisa. Vi um pouco de cada equipamento de carro, quis fazer um aglomerado de itens, de serviços, num único carro. Bolei o carro ideal e saí vendendo a minha idéia e acabei por arrumar o investidor.
As idéias do Tuffi 4.1 foram trazidas do Japão e dos Estados Unidos e as peças?
Trouxe várias idéias destes dois países, mas 99% do painel é nacional. Todos os produtos utilizados no carro, exceto os componentes eletrônicos críticos como os chips de memória, são nacionais e conhecidos no mercado. A Tuffi optou por não desenvolver ou importar para poder colocar um preço razoável: U$$ 40 mil. Decidimos usar o máximo de componentes nacionais por causa do custo. Além disso a manutenção também seria cara e as peças teriam baixa rotatividade. A opção pela mecânica GM ocorreu porque o motor do opala é tradicional pela robustez do conjunto como um todo, podendo rodar tranqüilamente 150 mil Km.
Conta mais um pouco do carro, quando ele entra no mercado e que serviços presta este painel eletrônico?
Ele estará nas ruas de todo o país em meados do segundo semestre. A idéia inicial foi atuar no campo dos automóveis de elite, na linha esportiva. Estamos em testes finais, confeccionando placas e as máscaras dos painéis. O carro entrará com painel convencional para ser homologado depois entra em versão digital. Vamos lançar pacote de software em 91, 92, 93...mudando o software entram mais serviços. O painel irá supervisionar motor, óleo, pressão, temperatura, amortecedores, lanternas, farol. Terá espelhos e bancos com memória.
São 19 funções não vitais que serão controladas por um computador de bordo, cuja CPU terá 1 megabyte de memória. Por exemplo, se o motor do carro aquecer ele avisa o usuário, inclusive por voz. Se a temperatura aumentar o sistema avisará mais três vezes. A partir daí se o usuário continuar rodando o sistema lembrará que ele é o responsável. Se em função disto o motor fundir, ao ser feito um autocheque, o computador acusará o usuário sobre o problema, já que ele continuou rodando. Existe uma caixa preta que supervisiona, dá estatísticas do veículo e como ele é conduzido.
Dá para chamar os outros carros de carroças?
Sim. A hora em que este carro sair, com toda esta tecnologia de ponta a bordo, os outros só terão aquilo que eles chamam de computador o que são meras calculadoras instalados no painel.
Quantos carros Tuffi sairão para as ruas?
Serão dez carros por mês, depois 20 ou 30. A JBN desenvolveu o projeto exclusivo total e parcial. Temos duas linhas: o exclusivo total, onde se desenvolve toda a eletrônica e todo o processo de montagem (o cliente com o pacote na mão leva para uma empresa e manda produzir). No parcial é um projeto que assume 25% do custo em troca de um contrato de fornecimento para o equipamento. Tenho um contrato com a Tuffi de fornecimento por dois anos de 20 unidades por mês. Este painel foi desenvolvido exclusivamente para os empreendedores. Posso desenvolver outros modelos para outras montadoras.
Esta empreitada com a Tuffi 4.1 se deve a sua certeza de sempre encontrar investidores?
Começamos o projeto em 89, antes desta crise, mas sempre acreditei em investimentos. Inovar é preciso. Vou atrás, busco, sou um autodidata, me debruço nos livros, pego um avião, vou ver, volto. Não existe nada que me detenha quando quero criar algo, vou a fundo. Nós podemos estar em crise, mas tem muita gente comprando Mercedes, ou na fila de BMV que custa U$$ 150 mil. O produto de consumo é que entra em crise, o produto elitizado não, ou se faz algo direcionado à grande massa ou à elite. É como o vídeo fone, tem gente que não tem um telefone em casa.
A JBN Electronics é representante exclusivo da Sega, do Japão, há pouco mais de 6 meses, conta como foi essa transação?
Em fins de 89 fui procurado pelo Play Center para consertar três máquinas Sega de Fliperama. Quando peguei as placas na mão, a primeira idéia foi entrar em contato com o fabricante e pedir autorização para mexer. Consegui arrumar as placas e o parque me entregou a manutenção de suas 400 máquinas. Para isso acabei por abrir a JBN II - Divisão Máquinas que é a Sega BR. Em um certo momento estávamos dominando tão bem a tecnologia que fomos procurados pela Sega para ser o representante e distribuidor autorizado de seus produtos na América do Sul.
O mercado está aberto para as placas de voz e mídia impressa falada?
A placa de voz está entrando em tudo, começamos a vender agora para elevadores. Nos Estados Unidos a maioria dos elevadores já fala: próxima parada, atenção, mantenha distância da porta. No Brasil, começou a ser introduzido agora. Como somos representantes da Texas no Brasil, acabamos por lançar uma placa genérica com uma paralela serial, 8 contatos abertos, 255 frases diferentes que sintetiza e digitaliza. Estamos começando a desenvolver som para caminhões de gás e ainda uma mídia impressa falada que uma agência de propagandas está pretendendo introduzir aqui. Numa das últimas “Business Week” saiu uma página em mídia impressa falada distribuída para 700 mil exemplares. Eu trouxe essa tecnologia para o Brasil para implantar aqui, mas o custo de cada unidade é de 4 dólares e se colocarmos em cima de 700 mil revistas o custo final é muito alto. Desenvolvemos a nível de projetos exclusivos toda a rede de teleconferência do CityBank e ainda o sistema anexos 8, um equipamento que lança várias agências em rede telefônica. De repente uma reunião aqui em São Paulo, outra no Rio, outra em Fortaleza, Paris ou Nova Yorque. Em anel aberto, consegue-se colocar 5 mil empresas tendo a mesma reunião, dando palestra e agora pretendemos entrar com o vídeo para poder transmitir transparência onde todo mundo está acompanhando e se vendo.
O Sr. é conhecido como Professor Pardal, sempre inventou e construiu?
Comecei aos 14 anos dando bailes. Montei uma equipe e passei à montagem de discotecas num jogo de som e luzes e fiquei conhecido como João Som. Mais tarde montei toda a rede Shot, o sistema de iluminação da Aquários, fiz o Show de Lazer do Gênesis, do Rick Wakeman. Mais tarde fui contratado pela empresa Wagner Man/Paragon, e comecei a desenvolver projetos que conquistaram o 1 prêmio na feira de eletrônica em Zurique, isto em 79. Fui depois na BK e saí como Diretor.
Queria inovar, não gosto de fazer a mesma coisa, isto me dá uma agonia interna, meu negócio é desenvolver. Resolvi montar projetos por conta própria sozinho. Em 88, conheci Nuno Vecchi que me pediu para fazer o sistema de monitorização de temperatura do Exotiquarium do Shopping Morumbi. Nesta época conheci o Goulart de Andrade que fez uma matéria comigo sobre um carro Voyage super equipado que eu tinha. Fiquei conhecido no país inteiro. Isto me deu fôlego para catar todas as minhas economias e abrir meu próprio negócio. A JBN nasceu em 89, eu era o professor Pardal solitário, no inicio o Diretor, o boy, o faxineiro da empresa. Meu primeiro projeto foi um sistema de combate para o CTA. Depois criei o Brain 500 um sistema de alarme computadorizado para carro que foi considerado o mais sofisticado do mercado. Era uma unidade com mais de 30 milhões de combinações diferentes, CPU que controlava, teclado, unidade que fechava vidro e controle de combustível. Em seguida fui procurado pelo Play Centro e ai começou mesmo tudo.
O Sr. é conhecido como “Head Hunter”, qual é o caminho para garimpar gênios?
Os gênios que trabalham comigo são cabeças privilegiadas. De vez em quando eu dou mesmo uma de “Head Hunter” e saio por ai caçando. Gostaria de reunir dentro da minha empresa, as melhores cabeças, mas é difícil porque os temperamentos são difíceis. Eu sou um cara que gosto de cozinhar. Quando entra um técnico ou um engenheiro para trabalhar comigo eu pergunto logo de cara se ele gosta de cozinhar. Se ele cozinha, já me interessa e eu explico. Todo bom inventor é bom cozinheiro. Descobri isto pesquisando, trabalhando com professores pardais, percebi que todo o pessoal que tem aptidão para desenvolvimento gostam de cozinha, porque tem muito de criatividade e pratica.
Qual e o caminho para garimpar investidores?
Existe uma campanha de alta cúpula. Tenho assessoria que faz isto por mim e as vezes eu mesmo vou com o projeto debaixo do braço. Tem várias pessoas que investem em tecnologia, além de dólar, ouro, mercado de capitais. Como representante da Sega estou, atualmente procurando alguém para bancar comigo uma parte de industrialização de equipamentos aqui no Brasil. Isto não cai do céu, precisa ser bem estudado. Analiso o perfil da pessoa e idoneidade, só aí é que sai o negócio. Tenho ainda grandes projetos engavetados e patenteados procurando investidor. Estou bolando um sistema de informatização de boliche, um outro cartão magnético, uma espécie de mala direta para Shoppings ou feiras.
E daqui para a frente continuará investindo e procurando investidores no Brasil?
Viajo muito, mas ainda acho o Brasil o melhor país do mundo. Não existe um só local onde nasce milho no meio da rua, é só jogar a semente. Aqui não é país de tecnologia, deveríamos vender comida para o mundo em troca de tecnologia. Nosso problema é político, de estrutura. Comparo o Brasil com uma mula sem cabeça. País com corpo, força e potência, mas falta cabeça. Gostaria de vê-lo fazendo parte do primeiro mundo. O japonês pega a idéia feita e coloca tecnologia em cima aprimora o produto, o americano é o negociador usa a genialidade para sair do problema. Se conseguíssemos ajuntar um pouco dos três, nasceria um ser que ninguém pudesse segurar.
Afinal viver criando pode ser “estressante” além da cozinha qual a sua válvula de escape?
Na cozinha incremento risotos e molhos. Sou
também aficionado por foguetes. Nos finais de semana vou para
o sítio e lá solto meus inventos. Mas tenho um sonho
que é comprar um helicóptero, acho que pensar baixo
leva a uma condição baixa, sempre tem-se que pensar
alto. Se conseguimos 10% de um grande sonho já é uma
vitória. Se pensarmos baixo, do tipo “só quero ter um
Fusca” e conseguir 10% você consegue ter um pneu, mas se pensar
em ter uma Mercedes e chegar aos 10% terá um Gol.